A Páscoa e alguns dos seus mistérios

A Páscoa e alguns dos seus mistérios

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Durante os dias mais santos do ano litúrgico, o Tríduo Pascal, acompanhamos espiritualmente Jesus em toda sua Paixão. Muitos foram privados do consolo das celebrações, mas ficaram unidos em espírito e em verdade. Nosso sofrimento atual, com a privação dos sacramentos em diversos lugares, com tantas pessoas sofrendo no corpo e na alma, é uma extensão deste inefável mistério da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor. Na Quinta-feira Santa fomos ao Cenáculo, onde Jesus instituiu o Sacramento da Santíssima Eucaristia e do Sacerdócio, deixando o penhor da Sua graça e Sua presença verdadeira nestes sacramentos de amor. Seguimos nosso Senhor até o Horto das Oliveiras; rezamos naqueles momentos de trevas, onde Jesus estava sofrendo uma angústia mortal, suando sangue. Ele suou, sofreu, sangrou, mas não desistiu por amor a cada um de nós. Estávamos com Ele quando foi traído, preso; O acompanhamos em seu julgamento. Na Sexta-feira Santa, com o coração partido, escutamos a flagelação. Acompanhamos a Via-sacra, tendo um profundo desejo de poder ajudar Jesus a carregar a Cruz. Em profundo silêncio e dor ficamos ao lado de Maria e São João aos pés da Cruz. Ouvimos com grande reverência as palavras que Jesus pronunciou durante seu tempo na Cruz. Perplexos O vimos entregar Seu Espírito e ter Seu Coração aberto. Ficamos juntos quando o Santíssimo Corpo do Senhor foi colocado no sepulcro. No Sábado Santo permanecemos junto com Maria em profundo silêncio, meditando e contemplando.

E justamente porque acompanhamos Jesus em Seu sofrimento, podemos hoje, Domingo de Páscoa, nos alegrar com Sua ressurreição. Jesus Cristo venceu a morte! Esta é a grande alegria da Páscoa. Depois de ter sofrido no madeiro da Cruz, Cristo volta do reino dos mortos, pois Aquele que é a Vida não poderia permanecer no sepulcro. Mas a ressurreição de Jesus também nos revela alguns mistérios que queremos hoje contemplar.

Com o pecado original o céu ficou fechado, mesmo para aqueles que eram justos; na ressurreição, por Cristo, vencedor da morte, Deus abriu “para nós as portas da eternidade”1. Agora, verdadeiramente, temos acesso ao céu, podemos lutar com a certeza de que depois desta nossa vida poderemos ir para a eternidade, para a felicidade eterna que é reservada para aqueles que viveram segundo os ensinamentos de Deus.

Nós morremos junto com Cristo2, “pelo batismo fomos sepultados com ele na morte, para que, como Cristo foi ressuscitado dos mortos por meio da glória do Pai, assim também nós caminhemos em uma vida nova”3. Como São Paulo nos disse: “se ressuscitastes com Cristo esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, (…) aspirai as coisas celestes e não as terrestres4”, nossa esperança não está mais nesse mundo, mas no céu. Vivemos neste mundo, mas já não como pessoas deste mundo, caminhamos na vida nova, buscando em nosso dia a dia escolher o céu em cada uma de nossas ações.

Cristo voltou à vida, mas Sua ressurreição foi essencialmente diferente das ressurreições que vemos no Evangelho como a de Lázaro, por exemplo. Não foi simplesmente um voltar à vida natural. Jesus vive agora em um corpo glorioso, “não está mais situado no espaço e no tempo, mas pode tornar-se presente ao seu modo, onde e quando quiser, pois sua humanidade não pode mais ficar presa à terra, mas já pertence exclusivamente ao domínio divino do Pai 5”. Aconteceu uma verdadeira transformação. O corpo de Jesus é repleto do poder do Espírito Santo. Também nós seremos transformados,6 pois a ressurreição de Cristo é “princípio e fonte de nossa ressurreição futura7”. Um dia todos os bem-aventurados participarão dessa transformação.

A ressurreição é também a confirmação de todo o Evangelho. Tudo aquilo que Cristo disse é verdade. Ele provou por um milagre absolutamente inaudito, que Ele mesmo tinha predito, que o maior ato de amor da história não teria seu termo no sepulcro, mas na glória da verdadeira e nova vida. Se Cristo não tivesse ressuscitado, vazia seria a nossa pregação e vã seria a nossa fé8, mas Ele ressuscitou e por isso temos a confirmação do que cremos, de modo que nos tornamos testemunhas do Ressuscitado. Ser testemunha ressurreição é a missão irrenunciável de cada um de nós, os redimidos pela graça e misericórdia de Deus.

Por fim, “a Páscoa já é dom do Espírito Santo9”. Lemos no Evangelho de São João que Jesus apareceu aos seus discípulos ao entardecer do dia da ressurreição e soprou sobre eles o Espírito Santo10. Diante de tão grande mistério cessam as palavras e a profundidade do suspiro, do sopro de Jesus, dá aos discípulos o grande dom do amor. Ao soprar sobre eles o Espírito Santo, Jesus inflamou seus corações com verdadeira alegria Pascal, sendo este, “um presságio do vento pressuroso do Pentecostes”11. Que a Páscoa, que hoje celebramos, seja para nós uma verdadeira fonte de renovação espiritual e nos preencha do Espírito Santo, para que vivamos uma vida nova, à luz dos mistérios da ressurreição. Amém.

Diac. Cristiano ORC

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1 Oração do dia. Domingo de Páscoa. Missal.
2 Cf. Cl 3, 3.
3 Rm 6, 4.
4 Cl 3, 1s.
5 Catecismo da Igreja Católica, 645.
6 Cf. I Cor 15, 51.
7 Catecismo da Igreja Católica, 655.
8 Cf. I Cor 15, 14.
9 Diretório Homilético, 56.
10 Cf. Jo 20, 19-23.
11 A vida de Cristo II – Fulton Sheen. Ed. Petra, pg. 227.