Reflexão para o Domingo de Pentecostes

Reflexão para o Domingo de Pentecostes

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Veni, Pater pauperum! – Vinde, ó Pai dos Pobres! Vinde, Luz dos corações! (Sequência). “Guia-nos, Doce Luz” (S. Newman).

Perguntaram-me: por que o senhor é um homem de esperança, não obstante as perturbações de hoje? Respondi: porque creio no Espírito Santo!” (Cardeal L. J. Suenens).

Há alguns dias eu pensava naquelas palavras de Karl Rahner, que dizia: “O cristão de amanhã será um místico ou não será nada”. Esse amanhã de Rahner é o nosso hoje. É simples: nada compreendo de Deus, se não descubro que Ele está vivo. Alexis Carrel traduziu isso, testemunhando: “Minha vida era um deserto enquanto eu não conhecia Deus”. Esta semana, o Papa Francisco anunciou que vai canonizar em breve o Padre Charles de Foucauld, que foi eremita no Saara. Vale a pena conhecê-lo. Tudo um dia mudou para sempre em sua vida: “Assim que compreendi que Deus existe, entendi que não podia fazer outra coisa senão viver para Ele. Deus é tão grande, existe uma grande diferença entre Deus e tudo o que não é Deus…”. Como não pensar nas duras palavras de Alexander Soljenítsin, o escritor que experimentou a crueldade dos campos de trabalhos forçados (gulags)? Um dia escreveu: “Esquecemos Deus: este é o verdadeiro mal; o resto é só consequência”. Há um sofrimento hoje inegável: o esquecimento do Espírito Santo. Também nós ainda não acolhemos plenamente as palavras de Jesus. E como dizia o Cardeal Comastri, “toda falta de fé é um espaço proibido a Deus e, portanto, uma terrível solidão”.

Da parte de Deus é sempre Pentecostes! Da nossa parte raramente é Pentecostes! Hoje é um dia especial de graça para compreender, reencontrar e responder ao Amor de Deus. A liturgia nos transporta para dois momentos no Cenáculo. O primeiro: na noite do primeiro dia de sua ressurreição, o Senhor Jesus comunicou sua Paz aos corações conturbados de seus amigos, dizendo-lhes: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou eu vos envio”. Depois soprou sobre eles, dizendo-lhes: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados eles lhes serão perdoados” (Jo 20,19ss). O segundo momento, cinquenta dias depois: “Quando chegou o dia de Pentecostes (…). Todos ficaram cheios do Espírito Santo” (At 2, 1ss).

Também nós somos provados pelo medo, por causa da nossa falta de fé e confiança. Também nós ansiamos pela paz: “Criaste-nos para Ti, Senhor, e inquieto estará o nosso coração enquanto não repousar em Ti”, confessa por nós Santo Agostinho. Também nós somos enviados hoje ao mundo. E “nós somos os tempos, quais formos nós, tais serão os tempos” (S. Agostinho). Também temos necessidade do Espírito Santo: “Sem a Luz que acode, nada o homem pode, nenhum bem há nele” (Sequência). Também nós precisávamos ontem, precisamos hoje e amanhã do perdão de Deus.

Num dia de inverno e solidão na Cidade Eterna, recebi um dos mais oportunos conselhos de toda a minha vida. Ajoelhado no Confessionário da Basílica de Santo Apolinário, o sacerdote confessor me disse: “Reze ao Espírito Santo com estas palavras: “Veni, Pater pauperum! (Vem, ó Pai dos pobres!)”. Então, das profundezas confessei-Lhe repetidamente minha pobreza.

Gosto também de recordar um testemunho de São João Paulo II. Exatamente participando de um encontro com um grupo da Renovação Carismática, em 1980, ele disse: “Quando eu era criança aprendi a orar ao Espírito Santo. Aos 11 anos, estava muito triste porque tinha muitos problemas com a matemática. Até que meu pai me ensinou o ‘Veni Creator Spiritus’ (Vinde, Espírito Criador) em um livreto e me disse: ‘Recite isso e você verá que Ele o ajudará a entender’”. Com maior razão precisamos nós invocar o Espírito Santo… Temos nossas dores na carne, nos ossos, na alma. “Veni, Pater pauperum (…) Ao sujo lavai, ao seco regai, o frio aquecei”. É muito importante nos consagrarmos sempre ao Espírito Santo. Eu me consagro a Ti, sirva-Te de mim, instrumento tão insuficiente, para a Tua obra!

Nesta celebração do Amor procedente do Pai e do Filho, o Espírito Santo, o Paráclito, nosso Defensor, o Espírito de Verdade, deixemo-nos libertar desse medo terrível, que nos perturba e paralisa. Abramo-nos à Sua Paz, a verdadeira Paz, tão diferente da paz do mundo. Sua Paz é dom do Amor. É Ele mesmo. O poeta Ovídio escreveu um verso fulgurante: Est Deus in nobis. Há um Deus em nós! Esta é toda a riqueza do mistério: “Cristo em nós!” (Cl 1, 27). Nós confessamos que Jesus é nosso Senhor somente por obra do Espírito Santo. “Meu Senhor e meu Deus!”. É também o Espírito Santo que nos arranca da solidão da orfandade, rezando em nós: “Abbá! Meu Pai querido!”.

O reconhecimento e o arrependimento de nossos pecados é obra do Espírito Santo. Abramos o nosso espírito ao arrependimento… ouvimos na nossa Liturgia. “O momento supremo de um homem – não poderei jamais duvidar – é aquele no qual se ajoelha na poeira e se bate no peito e confessa todos os pecados da sua existência” (O. Wilde). Não tem preço a paz que vem dessas palavras: “Eu te absolvo dos teus pecados…”. Vá em paz!

Dizia o Papa Bento XVI: “O verdade exige ser comunicada. O amor exige ser comunicado. A alegria (a paz) exige ser comunicada”.

“A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou eu vos envio”. O mundo sem Pentecostes é como Babel, confuso, arrivista, fratricida. Um mundo no qual podemos nos encontrar também hoje. Como outrora aos Apóstolos, batizados no Espírito Santo, ora toca a nós a missão… falar de Jesus com a nossa vida e nossas palavras, falar do pecado, falar do perdão, da vida eterna, sem nenhum medo! Todos precisam de Jesus Cristo!

Uma só coisa deve nos causar medo: perder Jesus! O resto não conta mais. Que o mundo veja o nosso amor, nosso perdão, nossa serenidade, nosso martírio. Tudo isso se chama testemunho.

Pentecostes é coragem, coragem que vem da fé, da espera, da oração, da pobreza interior. Não coragem de presunção, mas de humilde reconhecimento do primado de Deus e de generoso abandono à Sua Vontade. “Voluntas Tua, paz mostra” (Na Tua Vontade está a nossa paz” (S. Gregório Nazianzeno).

Entremos, portanto, hoje, no Cenáculo da humildade e aguardemos com Maria, Nossa Mãe amabilíssima, o cumprimento da promessa de Jesus, pois a nossa força, a força da nossa Igreja, não vem dos projetos que elaboramos, mas é dom do Espírito Santo.

Concluo com a inspiração do Cardeal Angelo Comastri:

Jesus, hoje é Pentecostes! O Senhor é fiel! Doa-nos o Espírito Santo que nos arranca da preguiça, que nos livre do medo, que transforme a nossa vida em testemunho da Tua vida. Senhor Jesus, ajuda-nos a sair do Cenáculo da oração para ir para a praça da vida quotidiana gritar a boa notícia que é somente esta: Deus nos estende a mão para fazer-nos sair da tristeza da maldade. Não percamos tempo, mas acolhamos o Dom da Sua Misericórdia.

Pe. Eli Ferreira Gomes

Diocese de Anápolis